Antônia Burk valoriza a autoestima intelectual como proteção contra fracasso escolar e ódio digital

Num mundo em que o feed dita tendências, Antônia Burk aposta na construção da autoestima intelectual para blindar crianças e adolescentes dos riscos que rondam a internet. A professora e psicanalista levou o tema ao programa Inteligência Orgânica, no YouTube, e defendeu que escolas precisam olhar para a dimensão socioemocional com a mesma seriedade dedicada às notas em provas.

O episódio, publicado em 23 de abril de 2026, percorre a experiência pessoal de Burk, marcada por uma infância de violência doméstica no Rio de Janeiro, até chegar à formulação dos três pilares que guiam seu trabalho. Para ela, o sentimento de pertencimento e a discussão franca sobre desigualdade fazem parte desse caminho.

Quem é Antônia Burk e por que falar em autoestima intelectual?

Filha de uma família que enfrentou cenários de agressão, Antônia Burk cresceu observando como a autoconfiança de colegas com menos recursos era minada antes mesmo de a vida adulta começar. A vivência levou a pesquisadora a se especializar em psicanálise e, mais tarde, a lecionar, sempre com foco em educação socioemocional.

Autoestima intelectual, termo que ela usa repetidamente, significa acreditar na própria capacidade de aprender, questionar e argumentar. Burk sustenta que, quando estudantes fortalecem esse aspecto, despencam as chances de abandono escolar, subjugação ao ódio digital ou adesão a teorias simplistas que circulam em redes sociais.

Três pilares para fortalecer o pensamento crítico

1. Desenvolvimento emocional

Sem compreender as próprias emoções, diz Burk, fica quase impossível assimilar conteúdo acadêmico ou se posicionar em debates. A especialista recomenda que as instituições reservem momentos formais para que cada turma reconheça medos, frustrações e expectativas. Essa etapa do processo fomenta a autoestima intelectual e prepara o terreno para diálogos mais qualificados.

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2. Debate com argumentação

O segundo pilar passa pela prática de confrontar ideias de modo estruturado. Burk critica modelos de ensino “puramente comerciais”, que enxugam currículos a ponto de eliminar o espaço para o contraditório. Em sala de aula, ela propõe rotinas de debate em que alunos bolseiros e colegas de alta renda examinem o sentimento de pertencimento e a desigualdade real longe das bolhas de perfeição vendidas no Instagram.

3. Autogestão

Por último, a psicanalista incentiva estudantes a criarem metas, avaliarem avanços e identificarem falhas. Autogestão, aqui, significa assumir responsabilidade pelo próprio percurso, reforçando a noção de que conhecimento é processo contínuo. A prática também funciona como antídoto contra a sedução de narrativas como o movimento Red Pill ou da romantização de “esposas-troféu”, fenômenos que, segundo Burk, atraem jovens justamente por oferecerem respostas fáceis.

Sentimento de pertencimento longe das bolhas virtuais

Burk argumenta que, quando um grupo discute privilégios e carências de forma transparente, surge um vínculo genuíno capaz de furar a bolha algoritmada que segmenta perfis por renda, raça ou gênero. Para ela, esse encontro é decisivo para consolidar a autoestima intelectual, já que o estudante percebe que suas dúvidas não são isoladas — e que vale a pena expô-las.

Nesse sentido, a educadora reforça que professores têm papel ativo como “propositores”, responsáveis por criar ambientes seguros. A sala de aula, afirma, deve ser lugar onde falhas podem aparecer sem medo de cancelamento, e onde a desconstrução de preconceitos estruturais, como machismo e racismo, se dá pela escuta.

Pandemia e traumas coletivos ainda pendentes

Durante a conversa, Antônia Burk classificou a crise sanitária de Covid-19 como “trauma transgeracional” ainda não processado. Na avaliação dela, a urgência de retomar rotinas presenciais muitas vezes apagou o sofrimento coletivo que se estendeu por meses de incerteza. Esse hiato emocional, alerta, segue influenciando como jovens lidam com frustração, ódio digital e sentimentos de inadequação.

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Para evitar que a ferida permaneça aberta, a psicanalista aconselha escolas e famílias a admitirem as próprias limitações. Reconhecer o luto, as perdas financeiras e os preconceitos que ganharam força no período é passo essencial para que a autoestima intelectual possa florescer.

Diálogo semanal como estratégia prática

Como ação concreta, Burk sugere dedicar pelo menos 15 minutos por semana a uma conversa sem telas — sem celular, notebook ou TV ao fundo. Esse breve intervalo, enfatiza, serve para restituir a subjetividade abafada pelo fluxo constante de notificações e “conteúdo viral”.

Ela reconhece que, no início, o silêncio pode parecer desconfortável, sobretudo entre adolescentes acostumados a interações rápidas. Porém, reitera que o exercício é decisivo para impulsionar a autoestima intelectual e salvar uma geração da dependência de validação online.

No site Olhar Tec Digital, iniciativas de educação socioemocional como a de Antônia Burk encontram eco entre leitores interessados em tecnologia, inteligência artificial e inovação. Ao olhar para além dos algoritmos, o público descobre que habilidades humanas continuam no centro da formação de cidadãos capazes de navegar, com senso crítico, a era digital.

O episódio completo do programa Inteligência Orgânica está disponível no YouTube. Nele, a professora detalha exemplos de como implementar cada pilar em diferentes contextos escolares e familiares, sempre reforçando que a autoestima intelectual se constrói dia após dia, conversa após conversa.

Para quem busca soluções rápidas, a mensagem final é direta: não há aplicativo capaz de substituir o vínculo humano. E é justamente esse convencimento que, na visão de Antônia Burk, pode resgatar a criatividade e a originalidade das próximas gerações diante da fúria do algoritmo.

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