Formar jovens críticos nunca foi tarefa simples, mas a pandemia embaralhou ainda mais esse quadro. Foi o que pontuou o neurocientista Thiago Gringon em entrevista recente ao programa “Inteligência Orgânica”, disponível no YouTube.
Durante a conversa, gravada em 1º de abril de 2026, o professor da ESPM defendeu a criatividade como resistência em meio ao domínio de telas curtas, inteligência artificial e pressa por resultados. Segundo ele, retomar silêncio, leitura profunda e convivência presencial é vital para restaurar sentido humano a qualquer inovação.
O desafio de educar a geração pós-pandemia
Gringon batizou os atuais calouros universitários de “bebês de 18 anos”. O apelido não é pejorativo, mas sinaliza que esses jovens, moldados por aulas remotas e interações digitais, chegam ao ensino superior com pouca vivência fora da própria tela. Eles consomem conteúdos densos como se fossem reels de uma hora, saltando de ideia em ideia e, muitas vezes, sem mergulhar na essência do tema.
Para o pesquisador, o cérebro reage naturalmente tentando economizar energia. Ao identificar tarefas exigentes, como leitura crítica ou raciocínio complexo, a mente procura atalhos. O resultado, alerta ele, é um déficit de atenção que compromete a formação acadêmica e cidadã.
Quando a aula vira entretenimento acelerado
A pressa tornou-se a moeda corrente da sala de aula. Gringon comenta que, em vez de ouvir o professor por inteiro, parte dos estudantes alterna a atenção entre o conteúdo e notificações no celular. Esse hábito transforma palestras longas em vídeos picotados mentalmente, quebrando o fio narrativo necessário ao aprendizado.
O problema ganha escala quando o próprio educador cede à tentação de encurtar conceitos profundos em frases de efeito, tentando competir com o feed. Para o neurocientista, o caminho oposto é que sustenta a criatividade como resistência: aprofundar, ainda que isso pareça exigir mais tempo.
Universidade além da carreira
Cidadãos do mundo em destaque
Gringon argumenta que o campus não pode se limitar a produzir profissionais prontos para o mercado. A instituição deveria, antes de tudo, formar cidadãos conscientes. “Se a faculdade focar só na carreira, corre o risco de descartar o senso crítico, que é a alma da criatividade”, afirma.
Ele recorda que a leitura prolongada, muitas vezes vista como obstáculo, treina justamente essa musculatura mental. Ao praticar atenção sustentada, o estudante aprende a questionar, comparar fontes e construir pontos de vista sólidos — fundamentos indispensáveis para qualquer área.

Imagem: Reprodução
Inteligência Artificial versus criatividade humana
IA como combinadora de dados
Na mesma entrevista, o professor tratou da inteligência artificial sem retoques. Para ele, softwares generativos — que cruzam bases de dados e devolvem respostas em segundos — não passam de “criadores de combinações”. Eles misturam informações já existentes e oferecem um resultado estatisticamente provável. Falta, contudo, o toque subjetivo.
Subjetividade faz toda a diferença
Ao contrário das máquinas, lembra Gringon, o ser humano carrega contexto histórico, memória afetiva e moral própria. Esses elementos, reunidos, compõem a verdadeira criatividade como resistência, capaz de gerar algo inédito e com sentido orgânico. “É a nossa chance de manter pertinência no mundo dominado por algoritmos”, ressalta.
Retorno simbólico à “fogueira e à caverna”
Silêncio para inovar
Para cultivar imaginação, o neurocientista sugere um ritual quase primitivo: desligar telas, buscar silêncio e encarar as próprias sombras. Ele chama esse refúgio de “fogueira e caverna”. Trata-se de espaços metafóricos em que o indivíduo reflete, revê crenças e encontra propósito antes de produzir algo novo.
Gringon defende que apenas nesse recolhimento surge a faísca genuína. A pausa ajuda a mente a metabolizar informações e ligá-las de modos imprevistos. Sem isso, o fluxo incessante de notificações fragmentaria qualquer lampejo original.
Onde assistir ao episódio completo
O bate-papo com Thiago Gringon está disponível no canal oficial do programa “Inteligência Orgânica”. Quem quiser conferir cada detalhe sobre a criatividade como resistência pode acessar o vídeo diretamente no YouTube neste link. A conversa tem pouco mais de uma hora e reforça, do começo ao fim, a importância do pensamento crítico na formação de jovens e adultos.
Para leitores do Olhar Tec Digital, vale o convite: assista à entrevista e experimente, logo depois, alguns minutos de silêncio. Talvez a próxima grande ideia surja justamente nesse intervalo fora das redes.