Andressa Michelotti vê Big Techs como novos donos do jogo geopolítico

As plataformas digitais deixaram de ser meras ferramentas tecnológicas e passaram a influenciar diretamente relações de poder no mundo. Quem faz o alerta é a pesquisadora Andressa Michelotti, especialista em inteligência artificial que já trabalhou no Google e na Meta.

Durante sua participação no programa Inteligência Orgânica, Michelotti detalhou como essas empresas moldam narrativas, silenciam vozes e impactam governos inteiros. O recado chega em um momento em que o Brasil, um dos países mais conectados do planeta, discute novas regras para conter abusos online.

Plataformas viram atores geopolíticos

De acordo com Andressa Michelotti, o jogo geopolítico das plataformas ganhou força na última década. Serviços que antes serviam apenas para comunicação e entretenimento tornaram-se peças estratégicas de soft power, capazes de influenciar eleições, opinião pública e até decisões de Estado.

Segundo a pesquisadora, governos perceberam que não controlam mais sozinhos o fluxo de informação. Hoje, quem dita boa parte das regras são empresas sediadas no Vale do Silício, interessadas principalmente em maximizar engajamento e receita publicitária.

Broligarcas: Musk, Zuckerberg e o poder de um clique

No programa, a especialista apresentou o conceito de “broligarcas”. O termo, fusão de “bro” e “oligarcas”, descreve líderes como Elon Musk e Mark Zuckerberg, que concentram poder semelhante ao de chefes de Estado. Na prática, um simples ajuste de algoritmo pode silenciar opositores ou promover visões ideológicas específicas.

Michelotti ressaltou que, quando esses executivos decidem alterar políticas de moderação, bilhões de usuários sentem o impacto quase instantaneamente. “Eles controlam seus próprios ‘buracos do coelho’, capazes de redefinir a realidade de muita gente”, afirmou.

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Brasil no centro da disputa regulatória

Com internet em praticamente todo o território e consumo elevado de redes sociais, o Brasil tornou-se laboratório para a regulação digital. A pesquisadora lembra que o país figura entre os mais conectados do mundo, o que o transforma em palco prioritário para testes de novas políticas das Big Techs — e de possíveis abusos.

Para Michelotti, entender o jogo geopolítico das plataformas é essencial para proteger a democracia brasileira. “Aqui, qualquer mudança no feed afeta diretamente o debate público”, pontuou a ex-funcionária do Google e da Meta.

TSE e PL das Fake News: embate com as Big Techs

Durante períodos eleitorais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) assumiu, na prática, o papel de principal órgão regulador de inteligência artificial no país. A corte estabelece diretrizes de retirada de conteúdo, combate à desinformação e uso de automação nas campanhas.

Paralelamente, o Projeto de Lei das Fake News enfrenta forte lobby das gigantes de tecnologia. Michelotti observa que essas corporações pressionam para suavizar exigências de transparência e responsabilidade, argumentando que regras rígidas poderiam prejudicar a inovação.

Privacidade e capitalismo de vigilância

Outro ponto enfatizado por Andressa Michelotti é a aparente extinção da privacidade. No modelo de capitalismo de vigilância, dados se tornaram o ativo mais valioso. Cada curtida, clique ou tempo de visualização vira insumo para algoritmos que decidem o que você verá em seguida.

Ela reforça que a moderação de conteúdo perde prioridade quando o engajamento — e, consequentemente, o faturamento — estão em jogo. Ao privilegiar publicações que geram mais reações, as plataformas estimulam polarização e radicalização de discursos.

Não há solução simples, admite pesquisadora

Mesmo com a urgência do tema, Michelotti deixa claro que não existe lei única capaz de acompanhar a velocidade da evolução tecnológica. Para ela, a “resistência” exige vigilância constante da sociedade civil, transparência dos algoritmos e cooperação entre Estado e empresas.

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“Precisamos compreender como nossa atenção é mediada”, disse. Segundo a pesquisadora, somente com debate público permanente e ajustes contínuos será possível equilibrar inovação, liberdade de expressão e responsabilidade.

Assista à entrevista completa

No fim da conversa, a especialista convida o público a conferir a íntegra do bate-papo no YouTube. Lá, ela aprofunda conceitos e apresenta exemplos concretos de como o jogo geopolítico das plataformas impacta o dia a dia dos brasileiros.

Este conteúdo foi publicado pelo Olhar Tec Digital, que segue acompanhando de perto discussões sobre Big Techs, inteligência artificial e regulação da internet.

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