A internet tornou-se onipresente, mas a todo instante surgem alertas sobre seus efeitos no cérebro. A neurocientista Ana Carolina Souza, em entrevista recente, reforça que a chamada “neurociência da presença” precisa entrar na rotina de famílias e escolas.
Ela detalha como a exposição precoce a redes sociais interfere no autocontrole, tema que ganhou força justamente porque muitas crianças já navegam sem qualquer filtro. O argumento principal? O córtex pré-frontal, responsável por decisões e freios morais, ainda está em formação.
O que é a neurociência da presença
A expressão, nascida no meio acadêmico, descreve o estado de atenção plena no qual o cérebro consegue gerenciar estímulos externos sem perder o foco. Para Ana Carolina Souza, esse equilíbrio virou artigo de luxo na era dos excessos digitais. Enquanto o feed entrega novos conteúdos a cada segundo, o organismo dispara sistemas automáticos de recompensa – sobretudo a liberação de dopamina.
A especialista critica a “receita da dopamina” viral nas redes, que promete fórmulas mágicas de produtividade. Segundo ela, o cérebro humano é complexo demais para caber em dicas de 15 segundos. “Somos muito mais que química. Psicologia, economia e cultura também moldam comportamentos”, explica.
Sistemas motivacionais: defensivo e apetitivo
Para contextualizar a neurociência da presença, Ana Carolina relembra dois circuitos fundamentais: o defensivo, ligado às respostas de luta ou fuga, e o apetitivo, responsável pela aproximação de recompensas. Emoção e razão não competem; a emoção chega primeiro, com base nesses sistemas ancestrais.
Citados pelo neurologista António Damásio, esses mecanismos confirmam que apenas 5% a 10% do nosso dia se passa em plena consciência racional. O restante roda no “piloto automático”, reforçando a importância de ambientes saudáveis para crianças e adolescentes, que ainda não dominam o próprio freio neurológico.
Hiperconectividade e o córtex pré-frontal em desenvolvimento
A direta interferência das telas no desenvolvimento do córtex pré-frontal preocupa a pesquisadora. É ali que emergem funções como autocontrole, planejamento e metacognição – a capacidade de “pensar sobre o que se pensa”. Excesso de notificações, scroll infinito e comparações sociais constantes desviam a atenção e roubam energia cognitiva fundamental para o amadurecimento desse lobo frontal.
Para o público do Olhar Tec Digital, vale notar que nem mesmo a integração de soluções de bem-estar nos smartphones resolve totalmente o problema. “Enquanto o gatilho estiver a um toque de distância, o cérebro infantil vai buscar a rápida recompensa”, afirma Ana Carolina.
Por que o limite de 16 anos faz sentido
A neurocientista se alinha a autores como Jonathan Haidt ao defender o adiamento das redes sociais até os 16 anos. O motivo é biológico: antes dessa idade, as conexões neurais responsáveis por inibir impulsos não estão prontas. Dessa forma, likes, comentários e vídeos curtos agem como um “cassino digital” no bolso de quem ainda mal entende as próprias emoções.

Imagem: Reprodução
Regulação emocional começa em casa
Só restringir aplicativos não basta. Ana Carolina reforça que os cuidadores funcionam como espelhos neurais. Se pais e mães deslizam o dedo na tela o tempo todo, a mensagem passada é de que desconexão não é valorizada. “A criança aprende pelo exemplo”, resume a pesquisadora.
Por isso, recomenda-se criar zonas livres de celulares durante refeições e antes de dormir. Essas pequenas regras apoiam a neurociência da presença, pois favorecem a interação olho no olho, essencial ao desenvolvimento de empatia e linguagem.
Dicas práticas para cultivar o autocontrole
Quer aplicar a neurociência da presença no dia a dia? Comece priorizando tarefas únicas: feche abas extras, silencie notificações e programe intervalos longe da tela. Outra tática é investir em exercícios de respiração consciente, que ativam o sistema nervoso parassimpático e reduzem a ansiedade gerada por excesso de informação.
Além disso, atividades físicas regulares, sono de qualidade e alimentação balanceada fornecem o combustível necessário para o córtex pré-frontal crescer forte. Sem esses pilares, qualquer aplicativo de meditação vira apenas mais um ícone colorido na tela inicial.
Educação digital nas escolas
Algumas instituições já ensinam alunos a checar fontes, usar filtros de tempo e compreender que nem todo conteúdo precisa de resposta imediata. Para Ana Carolina, essa abordagem preventiva reforça a neurociência da presença e reduz a dependência de validação externa.
Assista à entrevista completa
Quer se aprofundar no tema? O episódio completo está disponível no YouTube e detalha, minuto a minuto, os argumentos da pesquisadora sobre hiperconectividade e autocontrole. Vale o clique para entender como proteger o cérebro e incentivar a inteligência emocional em uma era dominada por estímulos digitais.
Com base em dados sólidos e sem simplificações perigosas, Ana Carolina Souza oferece um roteiro claro: atrasar o acesso às redes, dar bons exemplos e criar espaços de desconexão. Se a proposta soa desafiadora, lembre que o benefício maior é um cérebro mais saudável — e plenamente presente.