Um simples deslizar de dedos na tela pode custar caro ao desenvolvimento infantil. É o que sustenta a psicóloga e professora Flávia Moreno, ex-secretária de Educação de Barueri, em conversa recente no programa “Inteligência Orgânica”.
Com base em pesquisas interculturais e décadas de sala de aula, ela dispara um recado direto a pais e educadores: o “celular está roubando a alma” dos pequenos ao interromper trocas de olhar essenciais para a formação da personalidade.
Quem é a especialista por trás do alerta
Flávia Moreno construiu carreira entre a academia e a gestão pública. Além de chefiar a Secretaria de Educação de Barueri, a psicóloga está finalizando um pós-doutorado que investiga aspectos socioemocionais da infância. Essa trajetória lhe dá, segundo ela, uma visão privilegiada sobre as transformações geradas pela tecnologia na rotina familiar.
Durante a entrevista, disponível no YouTube, a pesquisadora se coloca como porta-voz de um tema delicado: o conflito entre cuidado presencial e a presença constante do smartphone. Para o público do Olhar Tec Digital, acostumado a acompanhar avanços em dispositivos móveis, a fala funciona como um convite a repensar hábitos cotidianos.
Alerta sobre o “triângulo desfocado”
O ponto central da discussão é o que Flávia batiza de “triângulo desfocado”. No momento de amamentar ou ninar, o foco natural deveria circular entre cuidador e bebê: olhar, voz e contato físico fortalecem vínculos. Quando um celular entra nessa equação, a atenção se dispersa — e, segundo a psicóloga, a criança passa a disputar esse “investimento de valor”, buscando aprovações a qualquer custo no futuro.
“Celular está roubando a alma” resume, em frase de impacto, o resultado dessa distração. Para ela, o aparelho contorna a relação olho no olho, minando a base socioemocional que, mais tarde, influencia autoestima, segurança e até competências cognitivas.
Brasil x Portugal: contraste cultural no desenvolvimento
Flávia apresentou dados de seu estudo que compara crianças brasileiras e portuguesas. No Brasil, explica, a informalidade cultural favorece habilidades socioemocionais: criatividade, empatia e capacidade de improvisar ganham força. Já em Portugal, currículos mais rígidos e estruturados impulsionam desempenho cognitivo, como pontuação em testes padronizados.

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Essa diferença, afirma a pesquisadora, expõe como fatores familiares e escolares moldam resultados distintos. Embora mantenha a crítica ao uso indiscriminado de telas, ela ressalta que nenhum modelo é perfeito: cada contexto apresenta virtudes e desafios que pais e professores precisam reconhecer.
Docentes sob pressão e o peso do burnout
A conversa também se estendeu ao universo escolar. Flávia questiona a “vaidade docente” que, na visão dela, impede muitos educadores de admitir desgaste emocional. O burnout, ainda invisível em diversas redes de ensino, ganha força num cenário onde crianças já chegam à escola participando das decisões domésticas, o que torna a mediação pedagógica mais complexa.
Para complicar, persiste o que ela chama de “modelo de escola-fábrica”, estruturado na lógica industrial do século passado. Na prática, isso conflita com uma geração habituada a interações digitais instantâneas. A saída proposta é desenvolver flexibilidade cognitiva, tanto em sala de aula quanto no ambiente familiar, reduzindo rigidez e abrindo espaço para aprendizado contínuo.
Principais reflexões em tópicos
- Olhar desviou do bebê? A personalidade sente o impacto.
- Cultura brasileira favorece emoção; a portuguesa, razão.
- Orgulho de professores pode mascarar necessidade de ajuda.
- Modelos escolares antiquados travam inovação pedagógica.
- Flexibilidade cognitiva é fator-chave para lidar com a era digital.
Onde assistir ao debate completo
Interessados em aprofundar o tema podem conferir a entrevista na íntegra no canal “Inteligência Orgânica” no YouTube. O vídeo, publicado recentemente, reúne os argumentos de Flávia Moreno e amplia a discussão sobre como a tecnologia redefine relações parentais e práticas educativas. Para assistir, basta acessar este link.
Ao final, o recado permanece claro: reduzir o tempo de tela durante momentos de cuidado direto não é apenas uma escolha de estilo de vida, mas uma estratégia para proteger a etapa mais sensível do desenvolvimento humano. Pais, cuidadores e professores que tomarem consciência desse “triângulo desfocado” podem abrir caminho para vínculos mais sólidos — e, quem sabe, impedir que o “celular roube a alma” das próximas gerações.

