Uma injeção de US$ 10 milhões promete sacudir o transporte marítimo. A norte-americana AMPERA e a armadora Scorpio Tankers fecharam um acordo para desenvolver reatores nucleares compactos, projetados especificamente para operar no oceano. A meta é cortar emissões e atender às regras ambientais cada vez mais rígidas.
A solução combina combustível TRISO e tório, considerado mais seguro que o urânio. Se tudo correr dentro do cronograma, as primeiras unidades podem abastecer plataformas flutuantes ainda nesta década, abrindo caminho para navios totalmente movidos a energia nuclear.
Quem está por trás da iniciativa
No centro do projeto estão a startup de tecnologia energética AMPERA e a gigante do transporte de derivados de petróleo Scorpio Tankers. Ao investir US$ 10 milhões – cerca de R$ 50 milhões – as empresas querem acelerar a fase de engenharia dos reatores modulares do tipo MMR (Micro-Modular Reactor).
Emanuele Lauro, executivo da Scorpio, destaca que a parceria demonstra confiança na escalabilidade da energia nuclear em alto-mar. Já Brian Matthews, da AMPERA, afirma que o formato compacto abre portas para novos modelos de negócio, como aluguel de energia para plataformas offshore.
Como funcionam os reatores compactos
Diferentemente das usinas nucleares convencionais, cada módulo cabe em estruturas semelhantes a contêineres. O coração do sistema é o combustível TRISO, formado por microesferas encapsuladas que suportam temperaturas elevadas sem risco de fusão.
Em vez de água, os reatores utilizam dióxido de carbono supercrítico para remover calor e acionar as turbinas. Esse desenho elimina a necessidade de circuitos de refrigeração complexos e reduz o peso total da instalação, ponto crucial para aplicações marítimas.
Vantagens do tório sobre o urânio
O tório é três vezes mais abundante na crosta terrestre e produz menor quantidade de resíduos de longa vida. Além disso, não gera plutônio em quantidades significativas, fator que agrada a organismos reguladores preocupados com proliferação nuclear.
Aplicações previstas em duas fases
Na primeira etapa, os parceiros planejam lançar balsas de energia: plataformas flutuantes equipadas com até três reatores cada, capazes de fornecer eletricidade constante a estaleiros, terminais portuários e instalações de produção offshore.
Num segundo momento, a tecnologia passaria dos geradores estacionários para o porão dos navios. Motores elétricos alimentados pelos reatores poderiam eliminar tanques de combustível fóssil, reduzir paradas para abastecimento e liberar espaço para carga paga.
Benefícios logísticos e ambientais
Com autonomia estimada em décadas sem reabastecimento, embarcações nucleares precisariam de menos manutenção e emitiriam praticamente zero carbono. Ao mesmo tempo, cortes no consumo de bunker diesel baixariam custos operacionais, argumento de peso para armadores pressionados por margens apertadas.

Imagem: jornal diário
Pressão regulatória acelera busca por alternativas
Navios respondem por cerca de 3 % das emissões globais de CO₂, segundo a Organização Marítima Internacional (IMO). Em 2023, a entidade aprovou metas que preveem redução de 20 % nas emissões até 2030 e neutralidade de carbono por volta de 2050.
Esse cenário impulsiona pesquisas em combustíveis alternativos, como metanol verde, amônia e, agora, energia nuclear de pequeno porte. Para operarem comercialmente, porém, os reatores da AMPERA ainda precisam de licença da Nuclear Regulatory Commission (NRC), que atualizou recentemente suas normas para abrigar designs inovadores.
Novo modelo de negócios: energia como serviço
Além de vender reatores, a AMPERA pretende oferecer contratos de longo prazo em que continua proprietária dos módulos e cobra apenas pela eletricidade gerada, esquema semelhante ao de usinas solares por assinatura. A proposta facilita a adoção da tecnologia, pois reduz o desembolso inicial das empresas do setor marítimo.
Para o leitor do Olhar Tec Digital, vale observar que a mesma lógica vem ganhando força em data centers e mineração, onde a demanda por energia limpa e contínua cresce mais rápido que a oferta de fontes renováveis intermitentes.
Próximos passos oficiais
A expectativa é protocolar o pedido formal de licenciamento nos Estados Unidos ainda este ano. Se aprovado, o primeiro protótipo em escala comercial poderá sair do estaleiro até 2028, segundo projeções internas.
Em paralelo, equipes de engenharia estudam adaptações de casco e sistemas de propulsão elétrica para diferentes classes de navios, dos petroleiros de médio porte aos porta-contêineres globais.
Por que o projeto chama atenção do mercado
O avanço dos reatores modulares atende a três frentes simultâneas: economia operacional, segurança energética e descarbonização. Investidores veem nesse tripé uma oportunidade de antecipar o cumprimento de metas ambientais e, ao mesmo tempo, reduzir exposição a variações do preço do petróleo.
Com o investimento inicial já garantido e uma rota regulatória mais clara, AMPERA e Scorpio Tankers colocam a energia nuclear novamente no radar da navegação comercial – agora em formato portátil e, prometem, ultra seguro.